O movimento indígena de Manaus e entorno realizou, nesta segunda-feira (10), uma mobilização em frente à sede do Conselho Municipal de Cultura de Manaus (Concultura) para cobrar explicações sobre a impugnação da candidatura de Francielem Marikaua, indicada para disputar o assento de representação da cultura étnica/indígena no conselho.
Francielem, integrante da Comunidade e Associação Kokama Grande Vitória, foi escolhida pelo movimento indígena durante o I Encontro das Mulheres Indígenas de Manaus e Entorno, realizado na Chácara Dom Luciano. Na ocasião, lideranças, mulheres indígenas e representantes de diversas comunidades participaram de um processo de indicação organizado de forma autônoma pelo movimento, com duas candidaturas apresentadas. Francielem foi escolhida pela maioria das participantes.
Após a indicação pública e a ciência das comunidades, a candidatura foi regularmente inscrita no processo eleitoral do Concultura. O nome de Francielem chegou a constar na lista preliminar de habilitação publicada no Diário Oficial do Município, indicando, inicialmente, que a candidatura atendia às exigências formais previstas.
Entretanto, na divulgação da lista definitiva de inscritos, o nome da candidata deixou de aparecer. Apenas dois representantes indígenas foram mantidos no processo, enquanto a candidatura de Francielem foi impugnada sem justificativa clara. A situação gerou preocupação entre as organizações indígenas, especialmente pela ausência de comunicação direta e pela publicação do resultado em um sábado, dia em que, segundo informações da própria presidência do conselho, não há expediente administrativo.
Diante da falta de esclarecimentos, representantes do movimento indígena compareceram à sede do Concultura para protocolar uma manifestação formal e solicitar informações oficiais sobre o caso. Durante a mobilização, integrantes de outros segmentos culturais também relataram dificuldades semelhantes no acesso às informações do processo eleitoral.
Segundo o movimento, a divulgação dos atos oficiais ocorre apenas por meio do Diário Oficial, sem reprodução nos canais de comunicação institucional ou redes sociais do conselho, o que dificulta o acompanhamento por parte dos candidatos e das comunidades. A própria lista preliminar, relatam os organizadores, chegou ao conhecimento de muitos parentes apenas por compartilhamentos em aplicativos de mensagem.
Durante a reunião realizada na sede do conselho, a presidência do Concultura informou que o caso seria analisado e solicitou a verificação dos e-mails encaminhados aos candidatos. O movimento indígena reiterou a necessidade de respostas formais e transparentes.
Para as lideranças indígenas, a candidatura de Francielem representa não apenas uma pessoa, mas um conjunto de comunidades e organizações indígenas de Manaus e entorno que buscam ocupar legitimamente espaços de controle social e formulação de políticas públicas culturais. A participação indígena no Concultura é vista como estratégica para combater a invisibilidade histórica dos povos originários no contexto urbano da capital amazonense.
A principal reivindicação da mobilização foi por transparência, respeito institucional e garantia de participação política dos povos indígenas. As lideranças questionam a contradição entre o uso frequente da imagem indígena em campanhas públicas do município e as dificuldades enfrentadas quando os povos originários buscam exercer seus direitos de representação e participação nos espaços institucionais.
A COPIME acompanha o caso e reforça a defesa da representatividade indígena nos conselhos e instâncias de decisão pública, reafirmando o princípio de que nada deve ser decidido sobre os povos indígenas sem a participação dos próprios povos indígenas.